Sunday, October 15, 2006

o GAI vot A

O GAIvotA que planta ipês

Nunca imaginei que fosse ser assim... No início tudo bem, era mesmo tudo diferente, eu estranhava tudo mas... veio o depois. Onde o que era estranho era nada ser estranho quanto deveria ser. E com mais alguns passos do tempo fui eu quem vim sentir-me estranho, O ESTRANHO, o perfeito imperfeito diferente de todos os imperfeitos, que agora, perfeitos, aprendi rápido a amar.

Porque todas as pessoas por lá, embora não parecesse no começo, eram sim muito bem resolvidas com suas vidas... mas eu não, nunca me resolvi em nada, não com Ela, a gente sempre se batendo de frente! Queria que fizéssemos as pazes mas.... Ela é muito cabeça dura essa Vida... muito! Mas como não me encantar dela? Todas aquelas surpresas que ela me ofereceu na bandeja do destino que eu insistia em não acreditar (e ainda insisto). E aquele vento que bate na hora certa, o sol que aparece no meio das nuvens pra iluminar o beijo, a chuva que nos leva ao refúgio mais confortável que eu jamais descobriria sem a veloz necessidade... tudo isso tão de surpresa e tão sutilmente bem delineado como num quebra cabeças de possibilidades pontilhadas para no fim formar somente o indefinível...

Mas aqui tudo começou a vir do modo contrário... o que era ritmo, virou bagunça. O que era preparação, máscara, concentração, cumplicidade plástica, se tornou frenesi de agitação, dispersão, ebulição, catárse, inchaço de Vida a rasgar os tímpanos e adentrar os ossos com a pulsação orgânica e estranho eu não estranhar mas... o ao contrário me soou tão mais confortável. Ao contrário é tudo mais lúcido, e enfim, as coisas mudam de lugar caóticamente até que um certo ritmo imprevisível surge e começa a levar todo o bando a cantar e por essas coisas que muitas vezes me sinto muito melhor ao contrário que do modo certo, quadrado, aquele jeito besta engaiolado de viver que eu aprendi na escola, e é claro, reprovei. Quer dizer, não isso que você deve estar pensando... eu não fui reprovado... Eu reprovei a escola, e reprovo mesmo!

No início de tudo eu confesso que me apavorei. O simples fato de eu ter que ser alguém naquele instante me fez entrar na mais profunda crise existencial que já brotou por entre as falésias dos meus errantes pensamentos. Eu nunca havia precisado de fato ser alguém... Quanta ilógica havia na lógica desta civilização a que me condicionei! Quanta ironia e sarcasmo! Quando cheguei encontrei de certa forma um santuário de tamanha paz que no auge da overdose fez com que eu me contorcesse por dentro desejando poluição. Essa coisa me salvava de tentar me encontrar. Ao menos eu sabia que pra São Paulo eu não desejaria jamais voltar.

E de repente estava eu cercado de inúmeros alguéns tão especialmente únicos, tão coloridas suas faces de expressões que eu desconhecia completamente, mas que expressavam, de maneira inacreditável, o que eu julgava ser o indefinível...

Resumindo, através daqueles seres eu me descobri. Finalmente pude conhecer tudo aquilo que não sou e ainda ter o silêncio arbólico pra entender o fruto que em mim brotava. Nunca imaginei que fosse ser assim... colhi meu fruto do próprio chão. Do jardim? Não! Do cimento, do pátio mesmo... as árvores ficavam ao canto do céu que restava entre os quatro muros altos. No fruto eu paria-me uma coisa fechada em si mesma mas finalmente soube-me assim, uno, eu. Máscara nenhuma caberia mais em mim, estava completamente contaminado por aquele inchaço de vida que ali alagava-me de mim mesmo. E brotou o meu eu no meio do pátio. Mas era um fruto estranho, meio marrom, parecia um cacau, bem oco mas havia uma coisa dentro, e essa coisa se mechia parecia fazer anos... uns 27 anos talvez...E essa coisa que se mechia era eu... e senti meus braços grandes, meu corpo quente demais, tentei encher os pulmões e não sabia como parar e tentei gritar mas . . .

Eu avisei à todos que quando nascesse o fruto do fruto, eu iria cruzar o quadrado céu bordado de folhas pardas e voar em direção ao sal e nunca mais voltar... Eu sou bom nessas coisas... sempre prevejo. Não à toa me colocaram aqui. Afinal em São Paulo eu não tinha tempo pra mim mesmo porque haviam muitas pessoas que me sufocavam o tempo todo, saindo de todos os cantos, cruzando a sala, descendo do teto... pessoas e mais pessoas desesperadas. O problema era que eu era o único a ser atormentado por essas pessoas... Não sei o que elas viam em mim mas a sensação que eu tinha é que estavam todas cegas e ao me cruzarem decidiam não se afastar. Eu ficando muito, muito fraco. Sem tempo nem pra lembrar que às vezes é necessário comer, e principalmente, ir ao banheiro. E toda ação era uma luta pra me movimentar por entre tanta gente que se misturava ao meu redor me deixando surdo e claustrofóbico. Esqueci-me até que sonho voar. Um dia veio meu pai e me jogou num carro à força, eu não podia escutá-lo... estava engolido por um mar de gente machucada, ferida, angustiada, e aquela gente gritava de mais, todos pediam socorro, parados num tempo que eu não identificava e meu pai gritava e eu pedia silêncio gritando e gritando mas ninguém me atendia até que de repente a porta daquele veículo foi fechada e um silêncio abrupto se fez. Ninguém entrou comigo, entendi que ali era uma ambulância. Ambulância carregam bons anjos protetores. E finalmente pude ouvir a voz de meu pai, que há muito eu não ouvia, soar baixinho lá fora:

_Sim ele sofre de esquizofrenia e nunca foi internado antes...

Foi a melhor coisa a esquizofrenia... assim eu vim parar aqui neste outro lugar onde eu não sei onde fica mas sei que é perto do mar porque já vi gaivotas e sinto o cheiro no ar...

Ontem, quando o dia amanheceu eu não estava mais lá . . .

E só deicdi me dedicar a pensar tudo isso aqui porque eu estava com desejo de saber como todos ficaram lá na clínica. Afinal eu não deixei nem um bilhete de adeus... nada. Acordei logo depois que deitei. Levantei já no centro do pátio e o dia fazia barulho de amanhecer. Quebrei a casca dura do "cacau" e soube de imediato... Era o momento perfeito para finalmente alongar minhas asas.Voei com uma energia acumulada que me fez ganhar os céus em instantes. O sol nascia no fundo azul escuro da rua que ia dar direto no mar, eu sabia desde sempre!

Essa aqui, onde estou agora, é a ilha de que mais gostei. Decidi plantar ipês pra confundir com o céu do amanhecer...


-uFGg-

Wednesday, September 27, 2006

re-união



















Alguma coisa pode nos tornar idênticos
em meio a tanta diversidade:
OS NOSSOS SONHOS!!!

Monday, September 04, 2006

o Curioso


Finjo ser dessas pessoas que fingem ser pessoas normais

mas muitas vezes nem finjo

não faço questão

me sinto só, obrigado a fingir

...que por isso não me sou..


Por não suportar não ser-me enquanto eu

sou o que sou

sou o que sendo


Ator


feliz por ser qualquer outra coisa mais verdadeira

do que o que eu finjo ser

e acabo sendo

este não-eu

que escreve poesias

para se descobrir

no emaranhado de personagens

num furacão de intimidade

que vive às margens


sociedade?

Curioso...



uFGg


saudade é o interminavelmente incompletável

de um instante que não se desfaz no tempo

de um presente eterno

uma emoção infinita”

Saturday, September 02, 2006

(entre parênteses)






(.................................)
durante o finito espetáculo da vida
aprendemos a colocar e a tirar
infinitas máscaras
que a todo dia
somos coagidos à criar

Essa vida besta de imprevisíveis mistérios
acontece veloz, suave e intensa
como a trajetória de um rastro coloidal de luz

Luz, que uma hora acende
o presente de seu toque
que outrora compreende
o que se sente como choque

Os sentimentos então distraídos
eletrizam-se num golpe
onde a sabedoria dos desconhecidos
faz a voz do nosso hoje
o toque de sensibilidade pro agora

A vida é esse toque cego de tanta luz
onde misturam-se o eterno com o instantâneo

e ao longo do caminho
muitas vezes escuro
conhecemos os medos e a coragem
de saber isso tudo, e sentir-se seguro

fazendo parte

deixando que arda a arte
de todas essas máscaras pardas podres
que colorindo enfim enlouquece
o negrume da noite com o encanto da luz
de constelações raras

como num ir e vir
de ondas sobre as pedras
de marés a molhar calçadas
de todo o ciclo da água a fluir
escorrer e se evaporar pra chover
eu vivo e aprendo, reaprendiz
de amar o amanhecer
que enfim, feliz, posso concluir
que
a coisa mais séria da vida :::.,
:. . . é saber se divertir
(.......... :D .............)

............uFGg........

Monday, August 21, 2006

o auge nunca é consciente


















A Imagem é para ilustrar a poesia abaixo.

É foto do Artista Elísio Tiúba em sua viagem aos destroços da Tsunami na Indonésia

(imagem extraída do site dele, http://www.tiuba.com/ )

--vale a pena conferir o site--

não existe 100%

O progresso é atingir a Pré-história?

Muitas vezes me cercam sentimentos fortes de profundo abandono e desamparo.
A solidão de não estar comigo mesmo e me sentir egoísta por não fazer desfrutar de mim o potencial que me veste a biologia e a existência.
Algum medo, mergulhado nesta estranha solidão expremida em um retângulo de quarto entre tantos retangulares prédios, me consola: ainda sei-me completamente humano, no sentido comum deste significado por nós inventado como tantos outros...

Estranho como aceitamos tudo como sendo aquilo que nos explicam que é, ou que pelo menos a maioria das pessoas assim aceitam.
Acho gozado e ao mesmo incompreensível a capacidade que o coletivo tem de ser comformado e descurioso com o funcionamento do universo; parece haver cultural e intrínsecamente impregnada uma nescessidade de repetir os comportamentos que há muito vêm sendo repetidos pela história ... .

E é incompreensível a fragilidade do Homem perante a possibilidade de amar.

É incompreensível que o amor seja assim ainda tão compreendido pela massa de ignorantes que acredita que o conhece.
Foi sábio aquele que entendeu que o amor quando compreendido é outra coisa que não amor.
Os milagres, porém, às vezes acontecem.
Fica uma sensação de que no dia em que eles acontecem, o observador era quem estava diferente, e não o dia.

Porque os milagres não acontecem em contradição com a natureza, mas só em contradição com aquele pouquinho que sabemos sobre ela.

Estou à espera de um milagre?

Acho que o grande milagre pro homem comum, é simples assim: parar de esperar.
Sinto-me o abandono em pessoa, e ao mesmo tempo, sei me o mais rico de todos os abandonados.
Quando abandono-me, abandono junto tudo aquilo que amo e assim sei-me encontrado, sem precisar de amparo se não meus próprios pensamentos...

Embora a vontade de quebrar o vidro deste virtual que só nos separa, gasto e desgasto a saudade com meras palavras inúteis de reflexões endo-intra-pessoais e me sinto o pior dos seres, com todas as magias desvendadas, nu e sem nenhum mistério.

A vida é um paradoxo. Ouço isso recorrentemente.

Quando tenho em meus braços o prazer do abraço amado sei-me o mais incrível dos seres, com todas as magias finalmente desvendadas, nu e sem nenhum mistério.
E é assim que sei-me feliz.

Uirah Felipe Grano Gaspar

transbordamento















A Imagem é para ilustrar a poesia abaixo.
É foto de uma pintura de óleo sobre tela do Artista Elísio Tiúba

(imagem extraída do site dele, http://www.tiuba.com )

Trans_ição

Transbordamentos

Tenho tanto à ser escrito
Que escolhoi me calar à ‘eternidade material’
Para viver a graça do agora
Das vivências do espírito em corpo

Mas na lacunas incertas
Onde existir em corpo
É menos interessante que em poesia
Por estas linhas me esparramo
sobrepor-me de estrofes que

muitas vezes

se empilham desordenada e ATORmentadaMENTE
na vontade espásmica
de tantas que querem se desenrrolar em poesia

mas
no entanto
não possuo controle

nem prevejo e nem tento
escrever os poemas
e como em minha vida, a mágica
é o simples quem se manifesta

e que,
complexaMENTE
simplesMENTE AconTECE
no mEU ser drAMÁtico
que vive intensaMENTE, ATOR-doando

Wednesday, August 16, 2006

Pedra da Gávea - amanhecendo pensamentos



"Coragem para meditar

sem ter medo de encontrar-se"

Tuesday, August 15, 2006

filosoGandhi




“Todo auquele que possui coisas das quais não precisa é um ladrão(Gandhi)

    Simples Ambições

Gandhi não foi responsável somente pelas movimentações em direção à independência colonial na Índia, mas, graças à imprensa, sobretudo e contraditóriamente britância, foi também responsável pela eclosão, inspiração e/ou encorajamento de idéias e movimentos de libertação nacionalistas por inúmeras colônias do globo. Gandhi possuía uma capacidade intelectual fantástica para conceguir não só perceber, entender e expressar a injustiça imperialista da cultura européia opressora, mas como também a simplicidade, imaginação e coragem para enfrentar o ódio da cultura metropolitana de Império. Tendo sido enviado por sua família aos 19 anos para estudar direito em Londres, 'capital cultural do mundo', Gandhi obteve acesso aos mais variados conjuntos de idéias de pensadores contemporâneos, entre eles as idéias anarquistas do filósofo russo Tolstoi, com quem se correspondeu até sua morte em 1910, unindo informações “ocidentais” no interesse de sua própria cultura Hindu à tecnologia dos pensamentos antropológico-culturais que sua metrópole podia lhe oferecer. Só o fato de estudar direito já lhe garantiu uma 'sagacidade antropológica' nas relações sócio-internacionais, que, com seu pacífico 'jogo de cintura hindu', foi capaz de movimentar forças políticas monstruosamente opressoras, bem como mobilizar diferentes culturas /crenças /religiões à uma reeducação comportamental em prol de um objetivo popular em comum.

Após sua catártica experiência político-social na África do Sul, onde for a trabalhar como advogado, Gandhi foi preso em 6 de novembro de 1913 enquanto liderava uma marcha de mineiros indianos que lá trabalhavam à serviço do império britânico. Neste tempo, Gandhi conheceu, na prática, a manifestação de suas idéias pacifistas. A resistência pacífica com perseverante desobediência civil provocou um alarde incomensurável, tendo sido o seu gesto de queimar incansável e publicamente os “passes”, obrigatórios exlusivamente à 'classe' hindu, um choque muito maior nas autoridades locais, que repercurtiu por todo mundo, do que em sua própria saúde física, tendo ele sido fria e incansávelmente linchado enquanto agia. Jamais um homem havia tido tamanha audácia e coragem diante das violentas autoridades do império britânico. A atitude quase destemida de Gandhi fez dele herói popular com postura de Guru Espiritual, sobretudo diante da adoção do Khaddar (fiação e tecelagem manuais) como sua Indumentária oficial, bem como a prática de toda e qualquer humilde atividade se esta se fizesse nescessesária ou conveniente à circunstância.

De volta à sua terra ele logo consolidou relações íntimas com o Congresso Nacional Indiano, e tão logo ao movimento de independência, através do qual conseguiu divulgar de maneira eficiente suas idéias de conduta civil desobediente mas incondicionalmente pacifista. Gandhi percebeu em seu povo o sentimento de 'ter se tornado estrangeiro em seu próprio país”, tendo sido o primeiro a pronunciar tal frase que viria a ser usada ou concebida por outros movimentos de descolonização pelo mundo afora. Para Gandhi não existe beleza no tecido produzido através da pobreza e sofrimento de seu povo. No entanto o Império britânico sem muito esforço conseguiu arrasar a frágil economia têxtil que a cultura hindu-muçulmana possuia. Observando seu povo ele sentiu-se estrangeiro em sua própria terra ao notar que crescia na população o uso da costura britânica ao invés do Khaddar, e assim, decidiu promover um movimento de boicote às “roupas imperialistas”, com queima das peças em praça pública logo após discursso fortalecido por sua mulher, que encorajava as mulheres a produzirem todos os dias o Khaddar numa ação de independência, uma alternativa forma de fazer participar a massa feminina da Índia, que culturalmente não era bem vista atrelada à discuções ou atividades de cunho político. Gandhi também pôde observar o processo de ruínas em que as atividades artezanais de seu povo em geral ingressaram após a emancipação dos produtos manufaturados, em especial os londrninos, e assim, promoveu também boicote à estes - política do swadeshi -o boicote a todos os produtos importados, especialmente os produzidos na Inglaterra. Assim tentava, desta maneira, preservar não só o presente de sua cultura, mas como também seu passado, fazendo valorizar o produto consequência da cultura nacional e não a da “capital”. Acredito que o simples fato de ver o povo hindú-muçulmano governado por uma quase ridícula minoria de brancos literalmente estrangeiros era suficiente para Gandhi sentir-se um estrangeiro em seu próprio território. Outro forte fator para a constatação deste fato era o monopólio britânico sobre os meios de produção da “indústria” básica de subsistência: totalmente evidenciado pelo filme de R. Attenborough* no enfoque dado à questão do monopólio do governo no tratamento e produção do sal, no que ficou claro a proibição aos nativos de produzirem seu próprio sal.

Como não sentir-se estrangeiro em seu próprio país, quando se é impossibilitado de obter o sal que em seu mar abunda livremente?

Chocado diante de tamanha perplexidade, e após um de seus “dias de silêncio” - quando passava horas sem se comunicar oralmente com ninguém para poder pensar e acalmar o espírito, teve a simples idéia de promover um simbólico gesto que sabia, teria repercursões decisivas no comportamento de seu povo. Gandhi andou quase 400 kilômetro até o mar completando a viagem no aniversário do mais sangrento evento produzido pelo exército inglês, o Massacre de Amritsar (1920), coincidência de estranho mas forte simbolismo no imaginário do povo. A empreitada marcha do sal ficou conhecida como Marcha Dândi, que começou em março de 1930 e terminou em 5 de abril, e que, embora suas pretenções fossem meramente simbólicas à princípio, consigo Gandhi arrastou multidões em direção ao mar a fim de coletarem seu próprio sal com a finalidade de evitar a taxa prevista sobre o produto comprado dos ingleses, que lá mesmo o produziam, na completa “cara-de-pau”, levando logo o povo a perceber que a independência não viria através somente de um ato politico, mas de uma mudança no comportamento da sociedade. O sal logo começou a ser coletado artezanalmente pelo povo e naturalmente redistribuído para as cidades, num movimento das massas que mais parecia um organizado multirão anarquista em prol da independência de subsistência.

Mas o legado antropocêntrico deixado pela influência britãnica na Índia acabou por ajudar na conscientização da mesma de sua capacidade inerente à cultura opressora. A diferença numérica exorbitante entre a massa de hindu-muçulmanos contra a suscinta classe dos estrangeiros branquelos fazia evidenciar o quão patético seria o movimento obediente, ao mesmo tempo que fazia-se perceber que com aquela força numérica seriam desnewcessários quaisquer movimentos de violência, já que num confronto direto, a tecnologia em poder dos estrangeiros era indiscutívelmente superior no quesito agressividade e potenciais danos físicos, o que a inglaterra deixou claro com o Massacre de Amritsar.

As estratégias de Ghandi inclinavam-se sempre à formas de anarquização dos meios de produção de modo a fazer independente o povo do Estado, independentemente da ação violenta que esse Estado aplicasse na massa hindu-muçulmana. Gandhi julgava conhecer o método mais eficaz de se fazer erradizar as injustiças: fazer com que o injusticeiro enxergasse sua própria injustiça. Independência não é uma conquista somente política, muito menos uma luta armada e sangrenta, mas sim um estado de comportamento ou de conduta social. Para Gandhi, conseguir a independência só teria sentido se o povo se mostrasse à altura de sua própria independência, ou seja, que se mostrasse capaz de guiar-se independentemente com ou sem a supervisão de uma outra cultura. Para tanto, Gandhi mostrou à seu povo que ele só receberá o respeito que deseja quando este respeito estiver colocado em prática, ou seja, não se sujeitar de maneira alguma às condutas comportamentalmente violentas da nação opressora, a começar pelo boicote à identificação civíl, exigida então pela Metrópole. “Você só será respeitado como 'cidadão' Indiano quando se comportar de maneira a respeitar-se desse modo”.


A organizada e bem sucedida empreitada de desobediêncial civil deixou a inglaterra furiosa mas completamente desorientada. Conhecedor das leis britânicas, Gandhi genialmente defendia a sí próprio nos inúmeros tribunais por que fora julgado, e por conhecer a legislação tão profundamente, se pronunciava de modo a poupar o tempo das seções de julgamento revelando em primeira análise já julgar-se, dentro da maquiavélica ótica legislativa ocidental, como culpado e assim já determinar a sí mesmo como “merecedor” da pena máxima no julgamento em questão. Os tribunais nunca haviam ficado tão desorientados, e alguns juízes fizeram declarações notáveis durante o julgamento, muitas vezes confessando o absurdo das acusações e se desculpando, alegando que, como juíz, e só como juíz, teriam a obrigação de implicar as correspondentes penalidades, coisa que Gandhi deixava transparecer ao ser extremamente suscinto, prático e objetivo com relação às burocracias ocidentais. Este comportamento de fazer visível a injustiça à visão do “injusticeiro” gerou, desde o início, resultados tão absurdamente notáveis, que Gandhi o empreendeu até o final de sua vida. Teimoso em sua causa libertária, Gandhi ganhava cada vez mais confiança na simplicidade e precisão de seus atos que chegou, após sua soltura de um dos muitos 'trágicômicos' julgamentos, a propor numa reunião política que os ingleses se retirassem logo, pacífica e completamente, do território Indiano, como expressava seu povo este desejo através do movimento 'Quit India' – que significa literalmente “saiam da índia”. Os Ingleses, e não sómente eles mas também todo o resto do mundo, ficaram perplexos com sua atitude singular e humilde e humanamente gananciosa. Um dos representantes políticos na ocasião, boquiaberto após a breve reivindicação de Gandhi, indagou: “Mas você quer que nós ingleses peguemos nossas coisas e simplesmente partamos assim, pacíficamente?”. Gandhi respondeu positivamente com um sorriso compassivo em seu rosto deixando todos na reunião desconcertados. O escandalizado representante no momento riu irônicamente sem saber que mais tarde seria mesmo assim como Gadhi já alertava que a descolonização se promoviria.


Mas algumas perguntas não querem calar. Quais os reais motivos que levaram Gandhi a escolher o caminho da resistência pacífica que não outro? Ideologia baseada em seu esquema cultural, suas crenças? É verdade que a cultura Hindu prevê um conceito de 'não violência', que é conhecido como Ahimsa, conceito que permaneceu por muito tempo no pensamento religioso da Índia e que pode ser encontrado em diversas passagens dos textos hindus, budistas e jainistas. Mas será que só por isso mesmo? Gandhi já previa uma resistência interna diante da plurireligiosidade de seu povo, que por sinal era bastante fiel à suas crenças. Sobretudo um conflito entre a maioria Hindu e a minoria Muçulmana, que já aprensentava propostas separatistas após a Segunda Guerra Mundial. Ele previa um sangrento combate, que era alimentado e instigado pelas forças inglesas que estavam, em oposição à Gandhi, sempre apoiando quaisquer movimentação separatista interna. O conflito interno seria não só um aquecimento do status político inglês diante das massas, mas inclusive justificativa para sua ação violenta e controladora como sendo a única capaz de reequilibrar o caos e restabelecer a ordem. Isto garantia, no pensamento inglês, mais algumas décadas de soberania. Parafraseando Marc Ferro**,

compreende-se que os ingleses depois de se apoiarem nos hindus para destruir o ex-Estado Mongol, tenham se apoiado, mais adiante, nos muçulmanos para frear a Índia rumo à independência. Compreende-se também que o Leimotiv da “unidade da Índia” tenha desempenhado essa função política, a serviço da maioria hindu, o que é claro deixava os muçulmanos apreensivos em relação à unifificação da Índia, e que portanto, ganharam suporte moral inglês para inssitar seus objetivos separatistas.


Um pensamento dos ledários Dalai Lama se casa perfeitamente com a estratégia de Gandhi: “Não existe caminho para a paz, a paz é o caminho”. No entanto a resitência pacífica de Gandhi nunca se permitira ser passiva. A insistência na 'não violência' não era somente uma questão de crença de cunho religioso, mas também de visão e estratégia políticas, já que o incentivo à violência lógicamente levaria à falência o sonho de independência bem como faria fracassar diretamente a ambição mais forte de Gandhi: ver todas as religiões numa só geografia prosperarem lado a lado. Seus maiores sonhos deveriam ter magníficas dimenções, que teriam início de um 'novo tempo' de esperança através do exemplo das Índias (no coletivo). Sem dúvida não só sua visão política nem indeológica e nem religiosa fizeram de Gandhi o fenômeno revolucionário que representou. A capacidade antropológica que tinha em fazer amigos por toda parte revela que Gandhi ia muito além de uma luta pela independência de um povo. Até seus principais inimigos amoleciam diante de sua presença de espírito, com sua presença física inignorável. Eu arriscaria dizer que desde Jesus Cristo nehum homem fora tão genial na arte da persuazão social através da pura e simples verdade.

Mas Albert Eistein disse melhor sobre Gandhi ao afirmar que as gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra.

Uirah Felipe Grano Gaspar


*R. Attenborough* - diretor do Filme Gandhi (1982), vencedor de 9 oscars

** (História das colonizações, companhia das letras, 1996 (cap.9 – pag 309)