“Todo auquele que possui coisas das quais não precisa é um ladrão”(Gandhi)
Gandhi não foi responsável somente pelas movimentações em direção à independência colonial na Índia, mas, graças à imprensa, sobretudo e contraditóriamente britância, foi também responsável pela eclosão, inspiração e/ou encorajamento de idéias e movimentos de libertação nacionalistas por inúmeras colônias do globo. Gandhi possuía uma capacidade intelectual fantástica para conceguir não só perceber, entender e expressar a injustiça imperialista da cultura européia opressora, mas como também a simplicidade, imaginação e coragem para enfrentar o ódio da cultura metropolitana de Império. Tendo sido enviado por sua família aos 19 anos para estudar direito em Londres, 'capital cultural do mundo', Gandhi obteve acesso aos mais variados conjuntos de idéias de pensadores contemporâneos, entre eles as idéias anarquistas do filósofo russo Tolstoi, com quem se correspondeu até sua morte em 1910, unindo informações “ocidentais” no interesse de sua própria cultura Hindu à tecnologia dos pensamentos antropológico-culturais que sua metrópole podia lhe oferecer. Só o fato de estudar direito já lhe garantiu uma 'sagacidade antropológica' nas relações sócio-internacionais, que, com seu pacífico 'jogo de cintura hindu', foi capaz de movimentar forças políticas monstruosamente opressoras, bem como mobilizar diferentes culturas /crenças /religiões à uma reeducação comportamental em prol de um objetivo popular em comum.
Após sua catártica experiência político-social na África do Sul, onde for a trabalhar como advogado, Gandhi foi preso em 6 de novembro de 1913 enquanto liderava uma marcha de mineiros indianos que lá trabalhavam à serviço do império britânico. Neste tempo, Gandhi conheceu, na prática, a manifestação de suas idéias pacifistas. A resistência pacífica com perseverante desobediência civil provocou um alarde incomensurável, tendo sido o seu gesto de queimar incansável e publicamente os “passes”, obrigatórios exlusivamente à 'classe' hindu, um choque muito maior nas autoridades locais, que repercurtiu por todo mundo, do que em sua própria saúde física, tendo ele sido fria e incansávelmente linchado enquanto agia. Jamais um homem havia tido tamanha audácia e coragem diante das violentas autoridades do império britânico. A atitude quase destemida de Gandhi fez dele herói popular com postura de Guru Espiritual, sobretudo diante da adoção do Khaddar (fiação e tecelagem manuais) como sua Indumentária oficial, bem como a prática de toda e qualquer humilde atividade se esta se fizesse nescessesária ou conveniente à circunstância.
De volta à sua terra ele logo consolidou relações íntimas com o Congresso Nacional Indiano, e tão logo ao movimento de independência, através do qual conseguiu divulgar de maneira eficiente suas idéias de conduta civil desobediente mas incondicionalmente pacifista. Gandhi percebeu em seu povo o sentimento de 'ter se tornado estrangeiro em seu próprio país”, tendo sido o primeiro a pronunciar tal frase que viria a ser usada ou concebida por outros movimentos de descolonização pelo mundo afora. Para Gandhi não existe beleza no tecido produzido através da pobreza e sofrimento de seu povo. No entanto o Império britânico sem muito
esforço conseguiu arrasar a frágil economia têxtil que a cultura hindu-muçulmana possuia. Observando seu povo ele sentiu-se estrangeiro em sua própria terra ao notar que crescia na população o uso da costura britânica ao invés do Khaddar, e assim, decidiu promover um movimento de boicote às “roupas imperialistas”, com queima das peças em praça pública logo após discursso fortalecido por sua mulher, que encorajava as mulheres a produzirem todos os dias o Khaddar numa ação de independência, uma alternativa forma de fazer participar a massa feminina da Índia, que culturalmente não era bem vista atrelada à discuções ou atividades de cunho político. Gandhi também pôde observar o processo de ruínas em que as atividades artezanais de seu povo em geral ingressaram após a emancipação dos produtos manufaturados, em especial os londrninos, e assim, promoveu também boicote à estes - política do swadeshi -o boicote a todos os produtos importados, especialmente os produzidos na Inglaterra. Assim tentava, desta maneira, preservar não só o presente de sua cultura, mas como também seu passado, fazendo valorizar o produto consequência da cultura nacional e não a da “capital”. Acredito que o simples fato de ver o povo hindú-muçulmano governado por uma quase ridícula minoria de brancos literalmente estrangeiros era suficiente para Gandhi sentir-se um estrangeiro em seu próprio território. Outro forte fator para a constatação deste fato era o monopólio britânico sobre os meios de produção da “indústria” básica de subsistência: totalmente evidenciado pelo filme de R. Attenborough* no enfoque dado à questão do monopólio do governo no tratamento e produção do sal, no que ficou claro a proibição aos nativos de produzirem seu próprio sal.
Como não sentir-se estrangeiro em seu próprio país, quando se é impossibilitado de obter o sal que em seu mar abunda livremente?
Chocado diante de tamanha perplexidade, e após um de seus “dias de silêncio” - quando passava horas sem se comunicar oralmente com ninguém para poder pensar e acalmar o espírito, teve a simples idéia de promover um simbólico gesto que sabia, teria repercursões decisivas no comportamento de seu povo. Gandhi andou quase 400 kilômetro até o mar completando a viagem no aniversário do mais sangrento evento produzido pelo exército inglês, o Massacre de Amritsar (1920), coincidência de estranho mas forte simbolismo no imaginário do povo. A empreitada marcha do sal ficou conhecida como Marcha Dândi, que começou em março de 1930 e terminou em 5 de abril, e que, embora suas pretenções fossem meramente simbólicas à princípio, consigo Gandhi arrastou multidões em direção ao mar a fim de coletarem seu próprio sal com a finalidade de evitar a taxa prevista sobre o produto comprado dos ingleses, que lá mesmo o produziam, na completa “cara-de-pau”, levando logo o povo a perceber que a independência não viria através somente de um ato politico, mas de uma mudança no comportamento da sociedade. O sal logo começou a ser coletado artezanalmente pelo povo e naturalmente redistribuído para as cidades, num movimento das massas que mais parecia um organizado multirão anarquista em prol da independência de subsistência.

Mas o legado antropocêntrico deixado pela influência britãnica na Índia acabou por ajudar na conscientização da mesma de sua capacidade inerente à cultura opressora. A diferença numérica exorbitante entre a massa de hindu-muçulmanos contra a suscinta classe dos estrangeiros branquelos fazia evidenciar o quão patético seria o movimento obediente, ao mesmo tempo que fazia-se perceber que com aquela força numérica seriam desnewcessários quaisquer movimentos de violência, já que num confronto direto, a tecnologia em poder dos estrangeiros era indiscutívelmente superior no quesito agressividade e potenciais danos físicos, o que a inglaterra deixou claro com o Massacre de Amritsar.
As estratégias de Ghandi inclinavam-se sempre à formas de anarquização dos meios de produção de modo a fazer independente o povo do Estado, independentemente da ação violenta que esse Estado aplicasse na massa hindu-muçulmana. Gandhi julgava conhecer o método mais eficaz de se fazer erradizar as injustiças: fazer com que o injusticeiro enxergasse sua própria injustiça. Independência não é uma conquista somente política, muito menos uma luta armada e sangrenta, mas sim um estado de comportamento ou de conduta social. Para Gandhi, conseguir a independência só teria sentido se o povo se mostrasse à altura de sua própria independência, ou seja, que se mostrasse capaz de guiar-se independentemente com ou sem a supervisão de uma outra cultura. Para tanto, Gandhi mostrou à seu povo que ele só receberá o respeito que deseja quando este respeito estiver colocado em prática, ou seja, não se sujeitar de maneira alguma às condutas comportamentalmente violentas da nação opressora, a começar pelo boicote à identificação civíl, exigida então pela Metrópole. “Você só será respeitado como 'cidadão' Indiano quando se comportar de maneira a respeitar-se desse modo”.
A organizada e bem sucedida empreitada de desobediêncial civil deixou a inglaterra furiosa mas completamente desorientada. Conhecedor das leis britânicas, Gandhi genialmente defendia a sí próprio nos inúmeros tribunais por que fora julgado, e por conhecer a legislação tão profundamente, se pronunciava de modo a poupar o tempo das seções de julgamento revelando em primeira análise já julgar-se, dentro da maquiavélica ótica legislativa ocidental, como culpado e assim já determinar a sí mesmo como “merecedor” da pena máxima no julgamento em questão. Os tribunais nunca haviam ficado tão desorientados, e alguns juízes fizeram declarações notáveis durante o julgamento, muitas vezes confessando o absurdo das acusações e se desculpando, alegando que, como juíz, e só como juíz, teriam a obrigação de implicar as correspondentes penalidades, coisa que Gandhi deixava transparecer ao ser extremamente suscinto, prático e objetivo com relação às burocracias ocidentais. Este comportamento de fazer visível a injustiça à visão do “injusticeiro” gerou, desde o início, resultados tão absurdamente notáveis, que Gandhi o empreendeu até o final de sua vida. Teimoso em sua causa libertária, Gandhi ganhava cada vez mais confiança na simplicidade e precisão de seus atos que chegou, após sua soltura de um dos muitos 'trágicômicos' julgamentos, a propor numa reunião política que os ingleses se retirassem logo, pacífica e completamente, do território Indiano, como expressava seu povo este desejo através do movimento 'Quit India' – que significa literalmente “saiam da índia”. Os Ingleses, e não sómente eles mas também todo o resto do mundo, ficaram perplexos com sua atitude singular e humilde e humanamente gananciosa. Um dos representantes políticos na ocasião, boquiaberto após a breve reivindicação de Gandhi, indagou: “Mas você quer que nós ingleses peguemos nossas coisas e simplesmente partamos assim, pacíficamente?”. Gandhi respondeu positivamente com um sorriso compassivo em seu rosto deixando todos na reunião desconcertados. O escandalizado representante no momento riu irônicamente sem saber que mais tarde seria mesmo assim como Gadhi já alertava que a descolonização se promoviria.
Mas algumas perguntas não querem calar. Quais os reais motivos que levaram Gandhi a escolher o caminho da resistência pacífica que não outro? Ideologia baseada em seu esquema cultural, suas crenças? É verdade que a cultura Hindu prevê um conceito de 'não violência', que é conhecido como Ahimsa, conceito que permaneceu por muito tempo no pensamento religioso da Índia e que pode ser encontrado em diversas passagens dos textos hindus, budistas e jainistas. Mas será que só por isso mesmo? Gandhi já previa uma resistência interna diante da plurireligiosidade de seu povo, que por sinal era bastante fiel à suas crenças. Sobretudo um conflito entre a maioria Hindu e a minoria Muçulmana, que já aprensentava propostas separatistas após a Segunda Guerra Mundial. Ele previa um sangrento combate, que era alimentado e instigado pelas forças inglesas que estavam, em oposição à Gandhi, sempre apoiando quaisquer movimentação separatista interna. O conflito interno seria não só um aquecimento do status político inglês diante das massas, mas inclusive justificativa para sua ação violenta e controladora como sendo a única capaz de reequilibrar o caos e restabelecer a ordem. Isto garantia, no pensamento inglês, mais algumas décadas de soberania. Parafraseando Marc Ferro**,

compreende-se que os ingleses depois de se apoiarem nos hindus para destruir o ex-Estado Mongol, tenham se apoiado, mais adiante, nos muçulmanos para frear a Índia rumo à independência. Compreende-se também que o Leimotiv da “unidade da Índia” tenha desempenhado essa função política, a serviço da maioria hindu, o que é claro deixava os muçulmanos apreensivos em relação à unifificação da Índia, e que portanto, ganharam suporte moral inglês para inssitar seus objetivos separatistas.
Um pensamento dos ledários Dalai Lama se casa perfeitamente com a estratégia de Gandhi: “Não existe caminho para a paz, a paz é o caminho”. No entanto a resitência pacífica de Gandhi nunca se permitira ser passiva. A insistência na 'não violência' não era somente uma questão de crença de cunho religioso, mas também de visão e estratégia políticas, já que o incentivo à violência lógicamente levaria à falência o sonho de independência bem como faria fracassar diretamente a ambição mais forte de Gandhi: ver todas as religiões numa só geografia prosperarem lado a lado. Seus maiores sonhos deveriam ter magníficas dimenções, que teriam início de um 'novo tempo' de esperança através do exemplo das Índias (no coletivo). Sem dúvida não só sua visão política nem indeológica e nem religiosa fizeram de Gandhi o fenômeno revolucionário que representou. A capacidade antropológica que tinha em fazer amigos por toda parte revela que Gandhi ia muito além de uma luta pela independência de um povo. Até seus principais inimigos amoleciam diante de sua presença de espírito, com sua presença física inignorável. Eu arriscaria dizer que desde Jesus Cristo nehum homem fora tão genial na arte da persuazão social através da pura e simples v
erdade.
Mas Albert Eistein disse melhor sobre Gandhi ao afirmar que as gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra.
Uirah Felipe Grano Gaspar
*R. Attenborough* - diretor do Filme Gandhi (1982), vencedor de 9 oscars
** (História das colonizações, companhia das letras, 1996 (cap.9 – pag 309)